Mais do que os avanços obtidos na negociação com a Prefeitura, o magistério de Curitiba hoje mostrou que é possível construir um movimento forte, unificado, que vai além das fronteiras da própria categoria e conquista apoio real da sociedade.
Esta quarta-feira foi especial, não só pelo gigantesco ato público, que contou também com colegas da educação infantil e outras carreiras, mas pelos múltiplos sentimentos de quem estava ali: pertencimento, alegria de compartilhar aquele momento com colegas, uma união como raramente se vê nos dias atuais entre profissionais da educação, famílias dos alunos e a sociedade como um todo. Algo que em muitos lugares se perdeu, mas que aqui conseguimos reconquistar.
Um movimento como esse não se constrói do dia para a noite. É fruto de um longo período de reconstrução que temos feito na relação de confiança dentro das comunidades escolares, de ressignificação da educação aos olhos da população, e de construção efetiva de um movimento que foi ao mesmo tempo muito forte, mas muito acolhedor.
Porque foi um movimento construído com bases reais, a partir da dor real em cada escola, cada sala de aula, de cada professora, de cada professor, de cada criança, de cada família.
Não foi por acaso que o magistério se reuniu nas maiores Assembleias de sua história.
Não foi por acaso que a Prefeitura apresentou propostas às nossas reivindicações antes de paralisarmos. E mais de uma vez.
Não foi por acaso que nosso movimento foi pouco atacado. Mas foi muito, muito acolhido pela população. Alcançar 95% de apoio nos comentários nas redes nunca é obra do acaso.
Foi porque essa longa construção colocou o magistério de volta ao centro de importância da sociedade. E todos aqueles que tentaram abalar isso, falharam. Seja o prefeito em sua “escorregada” no aniversário da cidade, seja o vereador oportunista que tentou lacrar mas foi cancelado por seus próprios eleitores – várias vezes, sejam os “portais” de notícias abastecidos com dinheiro oficial ou a velha mídia tradicional, que às vezes abandona o jornalismo para apoiar seu grande patrocinador, nenhum teve sucesso.
Porque o magistério, tão acostumado a acolher, foi acolhido pela cidade.
E tudo isso foi feito por muitas mãos. Não apenas pelo sindicato e por nossa direção, mas por cada membro do CR que se comprometeu em ser a ponte entre essa construção e sua escola, cada professora e professor que se comprometeu em dialogar com mais colegas e com as famílias de sua comunidade. E cada um que foi lá nas redes sociais, interagir, curtir, compartilhar, comentar, compartilhar, comentar, compartilhar, comentar…
Porque o magistério ocupou cada espaço possível. Cada diálogo possível. Até o momento em que foi impossível essa dor continuar escondida. Se transformou em uma voz impossível de não ser ouvida.
E como diz a letra da nossa canção: “Hoje a cidade acordou diferente.”
É por isso que a manifestação de hoje tinha algo de novo. Não só pela dimensão. Mas pela energia. Havia um brilho a mais em cada olhar, em cada sorriso, em cada abraço. Não estávamos sós.
E por isso a Prefeitura buscou novamente o diálogo. Com a dimensão do ato, nas ruas e nas redes, fomos chamados novamente à negociação.
Enquanto quase todas as categorias precisam lutar para não perder o que têm, dessa vez o magistério estava na rua para avançar. E avançou.
Foi com esse entendimento que o conjunto do magistério presente na grande Assembleia realizada na praça ao lado da Prefeitura na tarde de hoje, decidiu encerrar a greve. Veja abaixo os pontos acordados com a Prefeitura.
Crescimento Vertical
Ampliação dos percentuais no Crescimento Vertical: dos 20% iniciais, passarão a ser 30% para o nível 2, 25% para o nível 3 e 25% para o nível 4, abrangendo cerca de 50% do total de inscritos neste ano. Esses percentuais valerão também para 2027 e 2029, garantindo nesse ciclo o crescimento para toda a demanda atual.
E agora, com outro avanço: o crescimento de 2025 que, além de atrasado estava em risco e não tinha data para ser finalizado, será implementado com efeitos em setembro deste ano, e os demais serão iniciados em agosto e finalizados em dezembro de cada ano.
Conquistamos a garantia do salto de nível para servidoras e servidores com mestrado e doutorado, acessando diretamente os níveis 3 e 4, de acordo com a titulação. Um direito previsto na lei da carreira que a Prefeitura se recusava a implementar.
Vale-Alimentação
O Vale Alimentação para toda a categoria do magistério, com valor fixo proporcional à jornada de trabalho, foi incorporado à proposta.
O modelo será construído em conjunto na mesa de negociação, com implementação prevista para março de 2027 e sem teto, evitando que professoras que recebem salário acima de determinado valor percam o benefício.
Este será um grande avanço, porque há milhares de docentes na rede que não recebem o auxílio-alimentação atualmente.
Concursos e reposição de quadros
A Prefeitura confirmou que o banco de candidatos de concursos vigentes será zerado e que novos concursos serão realizados. A empresa que fará os concursos já está sendo contratada.
Essa é uma das questões mais centrais para nossa categoria, já que a ausência de profissionais impacta muitas outras áreas.
Confisco das aposentadorias
Essa é uma luta fundamental que temos travado ao longo dos anos. O SISMMAC defende que volte a ser considerado o teto do INSS.
Educação inclusiva e profissionais de apoio
Essa é uma das pautas prioritárias para o SISMMAC. A SME informou que uma nova diretora do Departamento de Educação Especial assumiu recentemente e que o compromisso é apresentar um novo plano de trabalho, substituindo os estagiários por profissionais efetivos do quadro do Magistério.
O SISMMAC solicitou um pacto pela educação inclusiva envolvendo todos os servidores. Ficou acordada a realização de um grande seminário com representação das unidades, para junho de 2026, com objetivo de definir propostas, eleger uma comissão permanente e pactuar soluções. A SME se comprometeu a conduzir esse processo.
Crescimento Horizontal
A Prefeitura se comprometeu em lançar o edital do procedimento de crescimento horizontal em setembro, com finalização em dezembro do ano e implementação dos valores em janeiro do ano seguinte.
Abono do dia de greve
Essa é uma questão central da greve e, na negociação, havia muita resistência da Prefeitura, mas nós avançamos e agora temos a garantia de que a falta do dia 8 de abril será abonada, desde que o dia letivo seja reposto até 25 de abril de 2026. O acordo garante o não desconto no mês subsequente, com efeito retroativo a 8 de abril de 2026, sem prejuízo funcional ou financeiro para as servidoras e os servidores.
Melhoria nas estruturas
Também fruto da nossa pressão, há 40 obras em andamento em escolas. Além disso, a gestão municipal está trabalhando para resolver os problemas de ar-condicionado nas unidades.
Também afirmaram que estão resolvendo as questões das televisões, colocadas principalmente nas salas de professores para passar autopropaganda da Prefeitura (e que foram motivo da nossa campanha: Empacote a propaganda enganosa da Prefeitura).
Descongela
Foi a primeira grande conquista da nossa mobilização, antes mesmo da nossa greve começar. A Prefeitura, que publicou o crescimento vertical somente em 19 de dezembro de 2025, não iria implementar o Descongela sem luta.
Os 583 dias de trabalho que nos roubaram na pandemia por causa de uma lei federal voltarão a ser contabilizados. E retroativo a janeiro deste ano.
Essa conquista irá impactar especialmente quinquênios e licenças-prêmio, e vai gerar ganhos importantes para muitas professoras e professores.
Mesa permanente de negociação
A Prefeitura confirmou que a mesa permanente de negociação será mantida. O SISMMAC entende que esse é um instrumento fundamental para garantir o cumprimento dos compromissos firmados e para avançar nas demais pautas que não foram resolvidas.
Fazer diferente
Essas conquistas não vieram da boa vontade da gestão Pimentel. Vieram de assembleias lotadas, da presença nas redes e na rua, de professoras e professores de cada escola, que foram de família em família, explicando sua angústia.
Vieram de uma categoria que decidiu que não aceitaria mais esperar.
A greve foi suspensa. Mas o magistério que saiu às ruas no dia 8 não é o mesmo de antes.
É uma categoria que descobriu, de novo, a força que tem quando se une. E que sabe, agora mais do que nunca, que os próximos passos dependem de manter essa força viva.
Quem participou de cada um desses momentos históricos, vai guardar na memória: eu fui!
A nossa mobilização não para. Segue na mesa de negociação, nas escolas, nas redes e nas ruas, sempre que for necessário.
O mundo mudou, é verdade. Mas o magistério aprendeu que é possível fazer diferente. E fez.
Porque quando o magistério se une e bate o pé, a cidade treme.
E Curitiba sentiu isso neste dia 8 de abril. Ah, sentiu!











